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“Quem dizem os homens que eu sou?”

As Igrejas, ao longo destes dos mil anos de história, acharam que tinham a exclusiva interpretação e resposta sobre Jesus e os Evangelhos. Mas não tinham. Entenderam-se ou desentenderam-se entre elas ao longo dos séculos.

Hoje são as modernas ciências humanas que incidem no estudo, cada dia mais exaustivo, sobre a pessoa do Jesus histórico, na análise, social política, econômica,  psicológica, histórica, filológica, etc. (e ponho esse etc. porque as análises sobre os evangelhos são mais do que isso; por exemplo já se fez até análise marxista) sobre Jesus. Assim, pois, surge a análise cientifica, arqueológica e a critica histórica, aplicada aos evangelhos que incide, directamente, sobre a compreensão de Jesus e as respostas que se dão sobre ele. E já vão mais de duzentos anos de autores, livros e estudos sobre Ele.

A maior parte deste trabalho hoje, dá-me a impressão, de que se faz, como se fosse uma obra de técnicos e engenheiros. É certamente um trabalho meritório e necessário. Porém, seus trabalhos se baseiam mais em indícios com várias possibilidades de interpretação e reconstrução da figura do Jesus histórico, a partir dos quais se formulam hipóteses mais ou menos plausíveis. Tantas vezes são resultados sobre Jesus, incluídos em seus próprios pressupostos que se consideram científicos. Porém, em nossos dias, a pesquisa sobre o Jesus  histórico é fundamental para compreendermos melhor o “status quo” da questão e nos ajuda a descobrir melhor aquilo que é o teológico na compreensão de Jesus e que é importante para a fé.

Certamente no campo da investigação sobre a pessoa de Jesus, encontramos de tudo: pesquisadores confessionais cristãos, e outros muitos que tem seu ponto de partida (que se auto-proclama “objetivo”) em seu agnosticismo ou seu franco ateísmo confesso.

E é dentro deste contexto que, entre outras, encontramos as respostas sobre “Quem dizem os homens que é o filho do homem?” que formulara, segundo os evangelhos sinópticos, o próprio Jesus.

O que este velho estudante de teologia consegue perceber e refletir brevemente dentro deste panorama exposto é o seguinte:

1º. A finalidade dos Evangelhos escritos é mostrar (que não demonstrar) que Jesus é o filho de Deus. Em minha opinião, as pessoas, nenhuma pessoa é um objeto de análise ou um teorema que se demonstra, senão alguém que se mostra, que se revela, que se diz, que se auto-exprime. A percepção dela será sempre relativa ao sujeito que percebe.

2º. Quando se tira a fé em Deus (em princípio o Deus de Israel com toda a teologia veterotestamentária subjacente) da compreensão dos evangelhos, para ficar apenas com os fatos mais ou menos descarnados ou mais ou menos submetidos à compreensão de quem quer que seja, o resultado final sobre a pessoa de Jesus, não passa de alguém esturricado, como se fosse a autopsia de um cadáver, estudado em suas partes, mas que não consegue  encontrar (ou encontrando, forçado, segundo a perspectiva de cada autor, ou grupo de autores) um sentido para o todo. Podemos constatar, simplesmente, as dispares apresentações da pessoa de Jesus, apesar dos consensos que alguns estudiosos encontram, mais nos detalhes, do que na perspectiva geral dos escritos apostólicos, sempre submetido tudo à revisão de uns e de outros.

3º, Os Evangelhos são, por definição, proclamação da Boa Noticia de Deus em Jesus de Nazaré. Apresentam-se, não como história de Jesus, senão como teologia histórica ou historia teológica de Jesus. A história se torna teologia e, ao mesmo tempo, a teologia se expressa como historia.

4º. Diz-se que os evangelhos são contraditórios. Pode até ser. Mas isso não teria como não ser. Desde o momento que não existe um evangelho único. Além das cartas de Paulo que são os escritos mais antigos sobre o anúncio de Jesus, os evangelhos canônicos (normativos para a fé) são quatro. E os extra-canônicos (conhecidos como apócrifos), mais de setenta. Por regra geral os historiadores não reconhecem praticamente nenhuma historicidade neles. Seriam apenas re-interpretações de Jesus segundo as filosofias neoplatônicas ou gnósticas do momento.A pesquisa sobre Jesus se centra nos quatro evangelhos canônicos foram redigidos juntando tradições, ensinamentos e materiais dispersos, segundo a intenção teológica de cada autor, dentro das comunidades de fé, e com o objetivo de chegar a possíveis leitores concretos, em situações sócio-político-religiosas... diferentes, além, naturalmente, de terem o objetivo de comunicar a mensagem sobre Jesus nas assembléias litúrgicas.  Precisamente por isso, ninguém consegue controlar, manipular ou mesmo, compreender totalmente Jesus, pois sua pessoa e sua boa-mensagem é da parte de Deus. As necessárias variações na consideração de Jesus dão-nos a medida da grandeza de Deus em sua revelação, que, se revela nas comunidades de fé que refletem os evangelistas e não em um único indivíduo. Assim, a pluralidade humana na revelação de Deus, encontra sua garantia.

5º. Por outro lado, humildemente, atrevo-me a pensar que Deus não se revela em livro nenhum, porque Deus não é um livro. Deus se revela na vida: desde a vida do universo até a vida do ser humano, do Adão-humanidade. Deus é vida, não livro. Os livros nos trazem histórias, estórias, linguajens diversas, narrativas, símbolos,... expressões humanas da historia da humanidade. Donde vem a importância dos Livros (Bíblia). Mas Deus é bastante mais do que isso. Tanto é assim que, na hora de se revelar, “na plenitude dos tempos” chegou a nós por meio de Jesus, o carpinteiro de Nazaré da Galiléia. Um homem como qualquer outro, carpinteiro ou mestre de obras. Porém, teologicamente, se diz deste homem que “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”, na compreensão joanina.

6º. A linguajem utilizada nos evangelhos é mítica. Nossa linguajem de hoje se quer cientifica. Mas, toda linguajem é simbólica e corresponde à compreensão simbólica da realidade que cada época tem de si mesma. Os redatores dos evangelhos tinham a expressão simbólica de sua época. Então, no momento de transmitir o Evangelho, a Boa noticia de Jesus, o Filho de Deus, evidentemente teriam que usar a linguajem que hoje se qualifica da mítica, mas que, no momento, era a expressão simbólica na que todos se identificavam e que era o meio usual normal de comunicação.

7º E é por isso que, àquela expressão simbólica e mítica de toda realidade, presente nos evangelhos, torna-se uma linguajem que, eu prefiro chamar de teológica, porque, dentro dessa expressão concreta nos vem a mensagem de Deus sobre Jesus como Filho de Deus.

8º. Quando se tenta tirar a expressão simbólica de seu momento histórico, para reduzi-la a nossas análises cientificas do momento, como se nosso presente histórico tivesse a ultima palavra em alguma coisa, ficamos sem nada ou com uma variedade de hipóteses, de perspectivas e de conclusões que, agora sim, manifestam sobre a pessoa de Jesus, tantas diferenças, tantos matizes, tantas contradições, nas que dificilmente encontramos o Jesus original que nos chega pelos quatro evangelhos que, segundo os próprios técnicos da crítica histórica, são os escritos mais fidedignos que temos sobre Jesus.

Assim, tentaremos responder alguma coisa, a propósito daquela pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que eu sou?” As respostas são variadas, mas tento trazer algumas mais chamativas da atualidade:

1)      Jesus é um mito e não corresponde a uma pessoa real, dado que na história encontramos outros mitos, mais ou menos, paralelos a ele, como por exemplo o mito de Horus, divindade egípcia, ou o de Mitra, divindade persa, ou ainda paralelismos com deuses ou semideuses gregos, etc.

2)      A divinização de Jesus ocorre em paralelo com a divinização de Cesar Augusto, o primeiro imperador romano, a quem foram dedicados templos e, cujo culto, foi trazido posteriormente para o próprio Jesus.

3)      Hoje está de moda também afirmar que o Jesus histórico foi uma espécie de revolucionário que juntou um grupo armado para realizar a libertação nacional de Israel do domínio imperial romano, com a esperança de uma intervenção direta de Deus. Que evidentemente não interveio. Frustrou-se assim a esperança messiânica suscitada. Outros pretendidos messias, antes e depois de Jesus, tiveram o mesmo fatal desenlace.

4)      Jesus foi um profeta apocalíptico, um cético no estilo dos pregadores ambulantes da época, um taumaturgo ou um mágico milagreiro de seu tempo, etc.

5)      A ressurreição de Jesus é uma invenção (ou como muito, um delírio coletivo) dos apóstolos, após sua fracassada morte na cruz romana.

6)      Jesus não morreu realmente na cruz. Ele, após o fracasso de Jerusalém, voltou para a India, para a Caxemira, onde casou e teve filhos e onde morreu de velho e foi enterrado. O túmulo de Isha, nome indiano de Jesus, ainda está lá. Porém, tudo isto não é aceito pela própria crítica histórica.

7)      Para a fé muçulmana (em nossos dias, bem presente e ativa), Jesus é um dos três grandes profeta precursores do Profeta Maomé, mas de nenhum modo é o Filho de Deus.

8)      Acho chocante a identificação que alguns fazem do Antigo Testamento com o Novo. Como aquele repetitivo refrão de que “a Bíblia diz...”, dá-se o mesmo valor à palavra atribuída a Moises que às palavras que os evangelhos colocam em lábios de Jesus. Certo que os evangelhos mostram os fatos de Jesus de acordo com “as Escrituras”, mas é evidente que o anuncio sobre Jesus, o Jesus dos evangelhos não nega mas supera as antigas Escrituras.

9)      Em nossos dias, resulta impossível uma interpretação literal do que o Velho ou o Novo testamento nos reportam. A imensa maior parte dos autores atuais aceita, cada um ao seu modo, a crítica histórica básica. Cito um grande mestre, filólogo, declaradamente agnóstico, Dr. Antonio Piñero. E também permito-me citar, àquele que eu considero um grande teólogo e exegeta católico, Xabier Picaza. Todos os dois publicam nestes momentos em blogs da www.religiondigital.com. Admiro a sabedoria deles e de outros muitos. Estejamos ou não de acordo com eles, mas todos eles nos fazem pensar. Escolhi-os como representantes claros de uma floresta de autores, também muito interessantes, porque, repito, eu mesmo não passo de um velho estudante de teologia.

10)   A crítica histórica, por regra geral, porém, está de acordo em que Jesus é um homem real, nascido na Palestina, entre os anos 5 e 7 antes da era cristã, filho de um carpinteiro ou mestre de obras, de nome José e de sua esposa, Maria. Há controvérsia sobre se nasceu em Belém ou em Nazaré, mas a maior parte dos autores afirma que foi nesta segunda cidade. Pois foi conhecido como nazareno e seus discípulos primeiros foram nomeados de nazarenos, antes do que como cristãos. Pode-se afirmar que Jesus pertenceu ao entorno de João o Batista e que fora batizado por ele. Também que seu anuncio versou fundamentalmente sobre a iminência da chegada do Reinado de Deus. Jesus foi um judeu piedoso. Algum que outro autor o apresenta como sendo fariseu ou como sendo (ou havendo sido) essênio, porém isto é rejeitado por muitos. Certamente, chocou-se com as autoridades sacerdotais do Templo de Jerusalém e que foi condenado desde a aristocracia sacerdotal e que foi executado pelo poder romano representado por Pôncio Pilatos.

11)   Sobre  a questão da ressurreição de Jesus: O agnóstico não terá nada a dizer, pois é um assunto do qual não se pode falar sob o ponto de vista da história. Para o ateu, simplesmente, não há ressurreição nenhuma. Para o exegeta católico, há ressurreição, sim, que depois encontrará várias considerações interpretativas, seja ressurreição com incidência na história, ou seja com considerações meta-históricas.

É claro que, todos estes assuntos aqui trazidos são amplamente polêmicos, melhor ou pior divulgados pelos meios de comunicação e dificilmente assimiláveis por aqueles que não são técnicos, É como se um engenheiro de estruturas, nos explicasse os cálculos matemáticos necessários para construir um prédio de vinte andares cuja beleza (ou não) é o mais que o homem comum pode apreciar. Mas continuaremos. Porque Jesus também perguntou:

“E vós, quem dizeis que eu sou?”

É a segunda pergunta, em continuidade com a primeira, que Jesus dirige aos seus discípulos. Pergunta comprometedora, que é respondida por Pedro e até hoje pelos crentes de todas as igrejas cristãs: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”, na versão de Mateus. A tradição sinótica é, basicamente, coincidente. Comentamos o alcance da resposta para nossa compreensão atual. (O que se segue será breve e envolve percepções e matizes intermináveis por parte dos grandes autores).

1)      Proclamar a Jesus como Messias (Rei) nos situa perante uma situação de choque com o Estado de fato que governa a Palestina, isto é, com a estrutura do Império romano, seus representantes (Pilatos na Judéia ou Herodes Antipas na Galiléia), suas leis, seus impostos, suas conseqüências como a perda de terras, o empobrecimento de muitos, o enriquecimento de poucos, etc. Questões sociais e políticas entram nesta afirmação.  Jesus pedirá para não espalharem esta profissão de fé, por causa das  conseqüências que poderiam seguir para aqueles que ousassem proclamar publicamente a Jesus como rei, evidentemente, um delito de traição à ordem estabelecida. Segundo os evangelhos e muitos estudiosos, Jesus confessa francamente sua messianidade apenas no fim, no momento de sua condenação a morte. No evangelho segundo João, num momento determinado, após a multiplicação dos pães, o povo tenta proclamar a Jesus como rei, mas Ele não aceita e se afasta daquela situação. De todos modos, para os testemunhos escritos do novo testamento, fica claro que Jesus é Messias-Rei, em princípio, dentro da compreensão israelita da realeza que, se alonga teologicamente como Senhor universal.

2)      Proclamar a Jesus como Senhor, implica em sua divindade? Para Israel, Deus é o verdadeiro e único Senhor, porém os matizes intermináveis dos autores a este respeito com relação a Jesus, não nos dão uma solução satisfatória. Dentro da nossa dimensão de fé, proclamamos, sim, a dimensão do divino no apelativo de Senhor dado a Jesus, a partir do hino pré-paulino da carta de São Paulo aos Filipenses:” Jesus é Senhor para a glória de Deus Pai”. Este hino, apesar das análises atuais, traz a primeira confissão escrita sobre a divindade de Jesus.

3)      Proclamar a Jesus como Filho de Deus, tem também não poucas dimensões de compreensão:

a)      Foi considerado um filho de Deus no estilo dos faraós egípcios, dos semideuses gregos, dos imperadores romanos, por exemplo?

b)      Ou, mais precisamente, foi considerado filho de Deus, apenas no estilo dos reis israelitas?

c)        Penso que a compreensão da filiação divina de Jesus lhe vem do aprofundamento da compreensão teológica (salvífica) de sua paixão-morte-ressurreição. Compreensão que começa após sua ressurreição (com as conseqüências salvíficas) e que se prolongará ao longo dos séculos até hoje mesmo. Porque, logo depois da proclamação da fé em Jesus, como Cristo e Filho de Deus, este não nega, mas Ele mesmo explica o que significa: sua paixão-morte-ressurreição. Assim, fica claro que a proclamação da fé na  realeza e na filiação divina de Jesus vai unida indissoluvelmente com a acolhida do que chamamos, o mistério pascal. Quando Pedro rejeita esta compreensão, o próprio Jesus o afasta, chamando-o de Satanás. Assim, pois, a confissão de fé dos crentes levará inextricavelmente unida, a proclamação da divindade de Jesus com o mistério pascal da morte-ressurreição. A partir deste núcleo, a compreensão da filiação divina de Jesus, nos primeiros séculos do cristianismo, terá consideração ontológica, será a segunda pessoa da Santíssima Trindade, etc.

4)      Reza o Credo que Jesus “foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria”. Para situarmo-nos corretamente perante esta afirmação da fé, temos que recorrer aos dois grandes prólogos dos evangelhos de Mateus e de Lucas, donde nos vem claramente, porém teologicamente, esta afirmação.

a)      Os conhecidos como evangelhos da infância de Jesus, nos capítulos 1 e 2 dos evangelhos de Mateus e de Lucas, são os que nos trazem a concepção virginal de Maria por obra do Espírito Santo.

b)      A crítica histórica não aceita a historicidade deles. Com razão. Como disse, são prólogos aos evangelhos, com claro conteúdo teológico, sem pretensões históricas, mesmo que possam trazer algum detalhe histórico.  Porém, são proclamação da fé, adequada ao gênero literário, à cultura e à mentalidade da época.

c)       Parece-me patético imaginar qualquer coisa relativa à sexualidade referente a esta afirmação sobre a concepção de Jesus, como se dá a entender em outras personagens do passado, como o Imperador Cesar Augusto que haveria sido concebido pelo relacionamento do deus Apolo com sua mãe, ou do próprio Alexandre o Grande, cuja mãe afirmara não ser filho do rei Filipo da Macedônia, mas de um deus. Nos evangelhos não encontramos nada de este estilo.

d)      Encontramos apenas que o que em Maria foi gerado foi por obra do Espírito Santo (Mateus) ou que o Espírito Santo cobre “Maria com sua sombra” (Lucas). Porque quem vai nascer será o Emmanuel, o Deus-conosco segundo Mateus, ou o Santo, filho de Davi, filho do Altissimo, rei da casa de Jacó etc. em Lucas. Estamos, pois, perante francas afirmações teológicas ou cristologicas.

e)      Tanto Mateus quanto Lucas trazem a presença do Espírito Santo com a confissão da virgindade de Maria absolutamente unidos. Fazem referencia clara à presença do Espírito (ruah) que, desde o inicio da criação, passando pelos profetas, anima a presença de Deus tanto no universo quanto em Israel. O mesmo Espírito que pousa e repousa sobre Jesus. A virgem anunciada por Isaias se concretiza em Maria de Nazaré. É o Espírito, presente na história do mundo e de Israel, que guia a vida de Jesus nos evangelhos, desde o batismo até a ressurreição, que é situado em sua origem, na mãe, a Virgem Maria.

f)       Assim, pois, há, sim, uma proclamação teológica da virgindade de Maria unida à ação do Espírito que anima os profetas em Israel. E isto aparece claramente no cântico do Magnificat onde, em lábios de Maria, se coloca a esperança profética de Israel como realidade acontecida.

g)      Em nossos dias, em minha modesta opinião, tentar desvincular a virgem Maria da ação  do Espírito Santo na história de Israel (e por extensão na Igreja e na humanidade), não tem sentido nenhum. Porque a ação histórica do Espírito torna a Maria, a Virgem segundo as Escrituras.

h)      Ao longo da história, a controvérsia sobre Maria esteve presente. Desde algum antigo rabino judeu, herdeiro do farisaísmo, que apontou para a possibilidade (ou calunia) de que Maria teria sido violentada por um soldado romano de nome Pantera (ou Pandera), (a arqueologia encontrou um túmulo de um soldado romano com este nome, em algum lugar da Alemanha), até a defesa da virgindade física de Maria proclamada por algum que outro evangelho extra-canônico, por exemplo, o Proto-evangelho de Tiago. Na minha perspectiva, tudo isto está fora de questão. Porque assim como Jesus é teologicamente o Filho de Deus Pai, Maria é teologicamente a Virgem-profeta, cheia do Espírito, que concentra e canta a esperança realizada de Israel. (Sobre Maria, a Mãe do Senhor, já escrevi outro artigozinho).

5)      Jesus “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”.  São afirmações que se correspondem com o Jesus histórico, mesmo que depois, a apresentação que os evangelhos fazem da paixão e morte de Jesus, tenha um forte conteúdo teológico, como só poderia ser. Pois, na base desta proclamação da fé, encontra-se toda uma elaboração teológica de cada comunidade, representada pelo autor de seu evangelho, sempre “segundo as Escrituras”. Mesmo que encontramos uma franca coincidência dos evangelistas nos quadros sucessivos em que nos é apresentada a paixão e morte de Jesus. Pois a questão básica é: como proclamar a fé em Jesus, o Messias e filho de Deus, tendo na base histórica um carpinteiro galileu condenado à morte mais vil que se praticava na época, precisamente por ser profeta e Messias de pobres? Apenas uma perspectiva teológica redentora poderia dar sentido aos acontecimentos históricos na morte de Jesus. E esta perspectiva teológica se encontra, fundamentalmente, no Servo Sofredor de Isaias. Apesar de tudo, a realidade histórica de Jesus, crucificado, morto e sepultado não deixa lugar a dúvidas, seja qual for a interpretação que se deduza.  Vejamos:

a)      Jesus padeceu sob Poncio Pilatos que era governador ou prefeito romano na Judeia, naqueles dias. Pelos historiadores da época sabemos que Pilatos teve um governo sanguinário, até o ponto de ser chamado a dar explicações por Roma. Segundo os historiadores a condenação a morte de Jesus veio da aristocracia sacerdotal do Templo de Jerusalém e a efetivação desta morte na cruz, corresponde ao castigo romano, não ao judeu, que deveria ter sido por apedrejamento. Assim, pois, há certeza histórica da crucifixão romana de Jesus. O delito de Jesus, aparece claramente em sua cruz, onde é proclamado como Rei dos judeus e nezereu, isto é, da casa real de Israel e não apenas nazareno, de Nazaré.

b)      Jesus morreu realmente. Todas as hipóteses que falam sobre a possibilidade de uma morte aparente de Jesus, são rejeitadas pelos historiadores. Há especulações variadas sobre o ano e o dia da morte de Jesus. Muitos autores falam no ano 30 ou no ano 33, nos dias da Páscoa. Normalmente na sexta feira anterior ao sábado. Outros especulam se foi na quinta e até a quarta feira.

c)       Foi Jesus sepultado como nos contam os evangelhos? Ou, simplesmente foi jogado numa fossa comum, segundo o costume romano para com os crucificados? É uma questão amplamente discutida. Há aqueles que se inclinam em mostrar que seria impossível que Pilatos concedesse o cadáver de Jesus, um proscrito crucificado entre bandidos, para aqueles personagens que aparecem nos evangelhos: Nicodemos e José de Arimatéia. Porém, todos os dois são pessoas reais testemunhadas em outros escritos antigos. Nicodemos seria fariseu rico e José de Arimatéia, um abastado comerciante e o dono do túmulo onde seria enterrado Jesus. Sob minha perspectiva não vejo problema nenhum em considerar como histórico que o corpo de Jesus lhes fosse entregue. No fim, todos os dois tinham uma consideração especial, não apenas por serem ricos (que também) mas por pertencerem ao Sinédrio e as classes dirigentes de Jerusalém, com as quais o poder romano tinha interesse político.

6)      “Desceu à mansão dos mortos”. É afirmação que não está diretamente anunciada nos evangelhos canônicos, apesar de alguma alusão paulina como que “desceu às profundezas”. Porém, é claro que com esta afirmação se nos diz que Jesus participou de morte efetiva, como qualquer outra pessoa que morre, descendo ao Sheol ou ao Hades ou ao inferno (inferi, as profundezas), segundo o linguajar simbólico da época. Sob o ponto de vista teológico, se Jesus morreu na sexta feira às três da tarde e no terceiro dia, isto é no primeiro dia da semana, ressuscitou, permaneceu na região dos mortos o sétimo dia (sabath), o dia de descanso absoluto segundo a lei de Deus. Dizer que ressuscitou no terceiro dia é uma expressão feita que significaria hoje “pouco tempo depois”.  

7)      “ Ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”. Estamos com várias afirmações sobre Jesus, claramente teológicas, mas com incidências históricas.

a)      De fato, são quatro dramatizações em linguajem mítico-teológica, próprias da época, e que querem nos comunicar uma única realidade experimentada por aqueles que escrevem os evangelhos que é que Jesus está vivo, O mesmo Jesus que foi crucificado, morto e sepultado está vivo e, definitivamente continua presente em nosso mundo, por meio de sua comunidade de fé = igreja.

b)      A realidade histórica do fato nos fala apenas de um túmulo vazio. E aqui, sim, temos uma incidência histórica no fato teológico de que Jesus continua vivo realmente além da morte também real. A questão da procura das mulheres pelo corpo de Jesus, pode corresponder também à história. As visões de anjos e a compreensão de que Jesus está vivo nos traz a compreensão teológica da realidade histórica.

c)        As chamadas aparições de Jesus que nos trazem os evangelhos são a maneira concreta de como as comunidades de Fe (igrejas) percebem a presença de Jesus vivo: trata-se do mesmo Jesus crucificado (mãos e pés furadas), não é um fantasma; está presente do mesmo jeito na labuta dos pescadores; se lhe reconhece presente nas Escrituras e no partir do pão ou do pão e do peixe (eucaristia); sua presença traz alegria aos discípulos; sobretudo se remarca a presença do Espírito que continua presente na compreensão da missão que o próprio ressuscitado dá. Apesar das diferentes apresentações que fazem os evangelistas de Jesus vivo, o conteúdo teológico delas é praticamente o mesmo: presença real-alegria-eucaristia-Espírito-missão.

d)      O anuncio da ressurreição de Jesus vai unido indissoluvelmente com a esperança de sua vinda e julgamento definitivo. Espera-se para logo a realização dessa vinda na teologia primitiva que depois irá se alongando até hoje. A sessão à direita do Pai supõe a ressurreição e a vinda de Jesus, na mesma estrutura explicativa que algum apócrifo do antigo Testamento traz do lendário rei-sacerdote de Jerusalém, Melquisedec, dos ancestrais tempos de Abraão.

Concluindo esta (relativamente) pequena perspectiva sobre nossa resposta aos questionamentos mais atuais sobre Jesus, objeto deste (relativamente ao tema que nos ocupa) pequeno artigo quero re-dizer o mesmo que mais acima: Deus não está em nenhum livro, porque Deus não é livro mas é Vida.

No final do evangelho de João, Jesus ressuscitado pergunta a Pedro que sempre é um símbolo da igreja: “Simão, filho de Jonas, tu me amas?” por três vezes. E desta pergunta e sua resposta depende nosso autentico conhecimento de Deus. Porque “todo aquele que ama nasce de Deus e conhece a Deus e quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor”. Assim reza a primeira carta de São João.

Jesus é luz, pão da vida, caminho... que nos leva a Deus e Pai.

A sabedoria de Deus que vai muito além da sabedoria humana como reclamava São Paulo, vem do amor de Deus e da resposta de amor dos homens: “se falasse as línguas dos anjos e dos homens e não tenho amor, sou como um címbalo que faz barulho...”

Eu mesmo aprendi mais sobre Deus com muitas pessoas de minha paróquia, do que em tantos livros e estudos. Nem por isso, podemos desistir, como diz a carta de Pedro de “dar razão da nossa esperança”. E nisso estamos todos. Sem amor não há vida. Deus é experiência de vida e não sabedoria de livro. E a vida é experiência de Deus. Os livros podem ajudar. Ou não. Mas sobre tudo isto poderemos falar outro dia.

Pe. Agustin sj

 

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