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Maria, a Mãe do Senhor

É claro que, para compreender em nosso mundo atual, aquilo que nos transmitem os evangelhos e os escritos apostólicos, temos que nos remontar sempre àquele século I e à cultura judaica. Por isso:

1) Para compreender a Mãe do Senhor, em sentido messiânico ou real, temos que voltar para a Igreja-mãe de Jerusalém e para a compreensão do feminino dentro da cultura judaica e veterotestamentária.

2) Uma mulher, dentro da cultura israelita, torna-se importante quando é mãe. A esposa pode ser dispensada (de acordo com a lei mosaica) e é submetida à autoridade da sogra, -mãe do marido. É esta quem tem o poder feminino real na casa e seu poder lhe vem do filho que a protege. Do mesmo jeito, o Rei israelita tem várias esposas, concubinas e donzelas, mas é a mãe do rei quem ocupa um lugar especial.

3) Assim, a esposa do rei israelita não tem a ascendência que as rainhas têm sobre seus maridos, por exemplo, em culturas circundantes. Provavelmente, porque a casa real de Israel reproduz a unicidade do Deus único, sem contrapartida divina feminina, como de fato acontece em outros reinos vizinhos com as deusas Ishtar ou Ashtarté.

4) No Antigo Testamento não se usa o feminino de “melek” (rei), pelo contrário, na corte de Judá é oficial a “Gebira”, a mãe do rei. Este título tem dignidade e poderes especiais.

5) “Gebira”, de GBR, significa “a Poderosa”.

6) Maria, a Mãe de Jesus, foi recebida e venerada na comunidade primitiva de Jerusalém, como Gebira, Mãe do Rei-Messias, dentro da compreensão cultural tradicional da realeza israelita.

7) A lembrança dos “irmãos do Senhor”, como Tiago, só tem sentido se, ao seu lado, como autoridade genealógica, tem a Gebira. Tiago e os “irmãos” de Jerusalém precisam de Maria, a Mãe de Jesus, para instituírem sua autoridade eclesial como sucessores de Jesus, dentro da tradição oriental (estilo califato). Sem a “Mãe do Senhor”, não faria sentido para ninguém em falar em “irmãos do Senhor”, pois toda a dignidade da mãe vem do rei, isto é de Jesus, e, por meio dela para os chamados “irmãos”.

8) Com isto estamos chegando aos princípios da Igreja-mãe de Jerusalém que encontrou em clave israelita (de monarquia judia) os elementos fundamentais da realeza de Jesus.

9) Paulo, apesar das diferenças com a comunidade de Jerusalém, porém, não duvida da autoridade primeira desta Igreja, nem de Tiago, o irmão do Senhor, na linha messiânica israelita.

10) Questionamentos sobre a consideração de Maria e da família de Jesus, não faltaram desde o começo:

a) Marcos, que escreve para gentios, se vê obrigado a contra-restar a influência dos cristãos judaizantes: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Aqueles que fazem a vontade de meu Pai são, meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Assim, pois, não é a família de Jesus quem detém a autoridade.

b) Mateus e Lucas copiam a Marcos. Porém, já são outros tempos e com outras finalidades e para outros possíveis leitores que eles escrevem. Jerusalém já havia sido destruída. Conseqüentemente a influência do judeu-cristianismo jerosimilitano primitivo deixa passo para outras comunidades da diáspora. O evangelho da infância de Jesus (cc. 1 e2) em Mateus constata com tristeza a rejeição de Jesus por parte de seus patrícios, enquanto o evangelho da infância de Lucas destila a alegria da acolhida de Jesus pelos pagãos. Assim Lucas, o terceiro dos evangelhos sinóticos, sente-se na obrigação de devolver sua mensagem às origens judaicas: por exemplo, no encontro de Maria com Isabel, Maria é proclamada francamente como Mãe do Senhor (“kyrios”), pois ela é a Gebira. E o cântico do Magnificat coloca a Maria no lugar especial de veneração da Mãe do Rei messiânico. Assim Lucas resgata a experiência de Jerusalém.

c) Para João, Maria é a nova Eva, a Mulher nova, da nova Aliança. Há um claro progresso teológico na compreensão de Maria que é colocada teologicamente no primeiro sinal de Jesus, quando manifestou a sua glória nas bodas de Cana da Galileia, transformando a água das purificações judaicas (que por este sinal são abolidas), no vinho novo da Nova Aliança com Deus por meio de Jesus, que é quem nos purifica. E na manifestação plena de sua glória, no último sinal, que foi sua cruz, onde a Nova Aliança no Corpo e no Sangue do Senhor, torna-se o sinal maior do amor salvador de Deus.

11) A partir do século II nos chamados evangelhos apócrifos (ou extra-canônicos) também encontramos belos relatos sobre Maria, como sua infância, defesa de sua virgindade, sua dormição ou passagem para o céu, etc. É claro que os historiadores, por regra geral, nos dizem que são relatos fantasiosos. Mas é claro também que, a presença de Maria na piedade daqueles primeiros e singelos cristãos foi dando forma à veneração por Maria, a Mãe do Rei e Senhor Jesus que perdura até hoje.

12) No concílio de Êfeso, no ano 431, foi declarada “Mãe de Deus”, dentro dos questionamentos cristológicos da época.

 

Assim, pois, depois destas pequenas reflexões e colocações pontuais que podem ser, é claro, desenvolvidas, festejemos, veneremos e alegremo-nos com Nossa Senhora da Esperança, a Mãe messiânica do Senhor e, desde a mais primitiva Igreja de Jerusalém, Mãe da Igreja, nossa Mãe, como nos foi entregue por Jesus desde a cruz: “Filho, eis a tua Mãe”, e o discípulo amado acolheu-a consigo.

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