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Je ne suis pas Charlie

“Charlie Hebdo”, um pequeno pasquim tornou-se o centro das liberdades, quando dois terroristas islâmicos, assassinaram, a sangue frio, doze jornalistas, ao grito da vingança do profeta. Ao mesmo tempo outro terrorista islâmico, tomava reféns num mercadinho judaico de Paris, matando a mais cinco pessoas. Os três terroristas islâmicos, terminaram mortos.

O Charlie Hebdo não passa de umas folhas semanais, que se enquadram bem dentro do que se considera imprensa “amarela”. Vulgar, satírico, irreverente tantas vezes, mesmo que, aqui e acolá, traga uma luzinha de inteligência.

Ao mesmo tempo, não tem havido manifestação nenhuma para as barbaridades que se cometem ao grito de “Alá é grande”, tanto no Oriente Próximo e Médio, quanto na África. Na mesma semana dos assassinatos em Paris, houve uma massacre, segundo reporta Anistia Internacional, em Nigéria, onde entre duas e três mil pessoas foram assassinadas, pelo terrorismo islâmico, que tenta fazer seu Califato naquelas terras. Nos últimos tempos igrejas cristãs com gente dentro foram incendiadas. Por regra geral os dirigentes islâmicos estão mais preocupados com as “blasfêmias” contra o profeta, do que com os assassinatos perpetrados em seu nome. As minorias cristãs em países de maioria islâmica são ou perseguidas e assassinadas ou obrigadas a emigrar.

Porém, “je ne suis pas Charlie” (eu não sou Charlie), porque não comparto a liberdade para insultar, ofender ou machucar a ninguém. Muito menos, matar. A própria igreja católica tem sido motivo de ironias, piadas de mau gosto, insultos e blasfêmias desta imprensa amarela.

Mas sou absolutamente a favor da liberdade de opinião, de expressão e de imprensa. Aliás, sou a favor de tudo o que for o exercício da liberdade para os seres humanos.

O que eu percebo, entre outras coisas é que o nosso Ocidente e especialmente o Ocidente europeu se manifesta cada vez mais como pos-cristão. Não são poucos os que renegam o seu passado. Inclusive fazendo questão de apostatar.

E também constato que estamos voltando, neste início do terceiro milênio para aquele começo do milênio passado tenebroso de “guerras santas” e “santas cruzadas”. A guerra nunca foi, não é e nunca será santa. Santa é a Paz. No Oriente a yihad ou “guerra santa” voltou semeando morte. No Ocidente não há mas “santa cruzada”. Agora é a “santa liberdade de expressão”, canonizada pelo secularismo reinante. Também há as “santas leis democráticas”.

Essa “santa liberdade de expressão”, facilmente torna-se algo absolutamente estúpido, no seio de uma comunidade humana absorvida em suas ambições materiais de dinheiro, poder e prestigio. E mortal. Não são poucas as “santas leis democráticas” que conduziram a Europa inteira a produzir bilionários cada vez mais ricos, enquanto o número de desempregados, subempregados, marginalizados e pobres cresceu da mesma forma.

No fim, situamo-nos perante os sacro-santos princípios franceses e republicanos da “liberté, egalité et fraternité” (liberdade, igualdade e fraternidade), com os que todos estamos absolutamente de acordo. Pois, queiram ou não queiram são bem evangélicos.

O problema que se cria é quando se grita pela “liberté”, sem consideração com a fraternité e a egalité. A partir do Evangelho, o ponto de partida se situa na fraternidade. Sem o santo espírito de fraternidade, nunca vai haver nem igualdade nem, muito menos, liberdade.

Prova disso é o que temos aí: guerras, terrorismos, corrupção, interesses particulares, degeneração humana e institucional, e um longo etc. destrutivo e mortal da humanidade e do próprio planeta. Tudo isso em nome da liberdade. A humanidade está sofrida. O planeta esta tão doente quanto aquela.

Há esperança para isso tudo? Sim. Jesus: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim porque me ungiu e enviou-me para evangelizar os pobres, libertar os oprimidos, dar a vista aos cegos, dar a liberdade aos presos e anunciar o ano da graça do Senhor...” O poema messiânico de Isaias, ao que se corta “o dia da vingança de nosso Deus”. Não há dia de vingança senão ano de graça, isto é, de perdão universal. A utopia de Jesus e do Evangelho continua sendo isso: utopia...

Porém na Europa, quem se interessa ainda por Jesus e o Evangelho, com todas as conseqüências? Prevalece o quê na Europa? Certamente prevalece a economia, o que eles chamam o Estado de bem-estar que está sendo corroído pela crise econômica provocada pela ambição desmedida do capital. O secularismo com seus contínuos e efêmeros modismos consumistas até a aberração destrutiva e cega... Isto prevalece, enquanto se fecham mosteiros, conventos e igrejas de todas as denominações que, implacavelmente se tornam pubs, pistas de patinagem, hotéis; tornam-se lugares para qualquer coisa, menos lugares de oração e de encontro fraterno.

Certamente, sou a favor da liberdade para... o amor, para o bem de todos, para a alegria e a felicidade de todos. E todos são todos.

Com tudo isso que está aí: tem alguém feliz e contente? Os terroristas islâmicos mortos? Os franceses, nigerianos, sírios e etc. mortos? As famílias de todos eles? As comunidades, religiões, etnias... deles? Nós, que acreditamos em Deus e Pai de todos?

É por essas e por outras que “eu não sou Charlie” (Je ne suis pas Charlie), sou apenas mais um (aos trancos e barrancos, aprendendo todos os dias a ser) seguidor de Jesus em sua Igreja.

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