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Foi Jesus um mito?

Meu caro amigo,

Permíto-me lhe escrever a propósito de seu artigo com este título. Traz a referência de um autor australiano que desconheço. Por isso mesmo, não saberia exatamente o que dizer, não fosse alguns argumentos que o Sr. coloca em seu escrito e que me soam um tanto antigos. Não é este autor o único a falar em mito quando se fala em Jesus. Por exemplo, um dos grandes teólogos e exegetas de meados do século passado, o alemão Rudolf Bultmann, já colocou questões que o levaram à conclusão de que não podemos saber nada do Jesus histórico, pois o que nos anunciam os evangelhos é o Cristo da fé. Muito tem se andado de então para cá, por isso, trago aqui as seguintes observações, não com ânimo de criticar, mas de ajudar. Assim, pois,

1) Jesus não é um mito, porém, (e aqui o porém é longo, pois leva, em breves pinceladas e a propósito de suas colocações, mais de duzentos anos de pesquisa histórica sobre Jesus, que se quer científica, onde uns autores dizem, desdizem, contradizem, matizam uns aos outros, sejam confessionais de diversas confissões cristãs, agnósticos, ateus confessos ou simples céticos e, cujas teses abrangem desde aqueles que consideram os evangelhos totalmente históricos, até aqueles que consideram os evangelhos um puro produto elaborado, sem nenhuma incidência real com a historia de Jesus, de quem alguns –poucos, muito poucos, chegam a negar sua real existência)

2) O conhecimento de Jesus Cristo, chega até nós por meio, tanto das cartas apostólicas quanto dos evangelhos, numa linguajem que, em princípio, poderíamos chamar de “mítica” mas, que eu mesmo prefiro chamar de “teológica”. E, do mesmo jeito mítico (ou também, teológico), chegam até nós, as historias de outros grandes homens do passado, como Julho César, o próprio Cesar Augusto ou Alexandre o Grande. Chega também, mesmo que seja indiretamente, por historiadores romanos como Suetônio e Plínio, o jovem. Não poderia deixar de citar o discutido “argumento flaviano” trazido pelo historiador judeu, Flavio Josefo.

3) Porque seria, como mínimo, um anacronismo (ou até mesmo uma injustiça histórica) pretender que o que sabemos sobre Jesus (como sobre qualquer outra personagem do passado), que chegasse até nós, com certidão de nascimento, relato histórico semelhante a nossa linguajem e bom fazer atual. Pretensão impossível!

4) A linguajem mítica é um modo de expressão (toda linguajem é sempre simbólica e exprime mediante símbolos a realidade à qual se refere) que difere evidentemente da que chamamos linguajem racional, científica e, mais atualmente, tecnológica. Cada cultura leva junto seu próprio código de expressão simbólica em todos os níveis, também lingüística. Até não faz muitos séculos, a linguajem era fundamentalmente mítica. Talvez a partir do renascimento e o método de verificação e experimentação, surgiu a linguajem “científica”.

5) Basicamente, os evangelhos não são história de Jesus (como entendemos hoje a história), senão são “Evangelho”, isto é anuncio da boa nova de Jesus, Cristo (=ungido, rei), e filho de Deus. Desde o início os evangelistas nos alertam sobre a consideração “teológica”, não da história, senão da mensagem de e sobre Jesus. A expressão “mítica”, natural daqueles que nos transmitem a realidade teológica sobre Jesus, corresponde aos conteúdos simbólicos daquele século I vividos em sua realidade histórica. Mas, se podemos afirmar que os evangelhos não são história, são muitos os estudiosos (historiadores, exegetas, filólogos, etc.) que reconhecem em nossos dias que há um homem histórico, Jesus de Nazaré, como fundamento da apresentação teológica dos mesmos. E, também, que nos relatos evangélicos há não poucos elementos que remontam à própria história de Jesus.

6) Certamente temos que, na base do anuncio teológico, existe um judeu piedoso que viveu na Palestina no século I e que, segundo a maior parte dos autores, nasceu, não em Belém, mas em Nazaré e que fora “nezereu” (isto é, da casa real de Israel –seguindo a Xabier Pikaza) e não apenas nazareno (natural de Nazaré). A data de seu nascimento situam-na entre o ano 6-7 a. de C.

7) Entre os autores, defende-se, por regra geral, que Jesus morreu crucificado sob o poder romano (a crucifixão é castigo romano, não judeu), porém quem o condenara fora Caifás, do sumo sacerdócio do Templo de Jerusalem, pertencente ao grupo saduceu no poder, genro de Anás que era no momento o chefe da casa sacerdotal dos ananitas. A maior parte dos autores situa a morte (e ressurreição) de Jesus na Páscoa judaica do ano 30, mas algum que outro afirma que é no ano 33.

8) A condenação romana está plenamente justificada desde o momento em que Jesus anuncia a chegada iminente do Reinado de Deus. É evidente que o poder romano não poderia aceitar um reinado diferente daquele do César. Mas Jesus não foi o único Messias naqueles tempos. Antes e depois de Jesus houve outros proclamados Messias (rei), por exemplo, o revoltoso Judas o Galileu, antes de Jesus e, o último Bar Kochba (filho da estrela) nos tempos do imperador Adriano. Também estes tiveram morte violenta. Assim pois, Jesus não foi uma exceção dentro das expectativas de Israel onde, quem mais quem menos esperava a libertação de Israel da dominação romana. Pode se afirmar isto a partir da leitura dos manuscritos do Mar Morto pelo que diz respeito ao grupo dos essênios com relação a esta expectativa de uma intervenção divina na libertação de Israel. Assim, pois, dado este contexto político-social-religioso, alguns autores modernos, não sem razão, tem querido ver em Jesus um revolucionário.

9) Os primeiros escritos sobre Jesus nos chegam com Paulo, que escreve suas cartas a partir dos anos 50, isto vinte anos após os acontecimentos originais da morte-ressurreição, para comunidades de fé bem estabelecidas. Isto é uma constatação: aos vinte e poucos anos da morte de Jesus, o chamado “Caminho” (assim se chamavam os primeiros seguidores de Jesus), já tinha se espalhado por várias cidades da bacia do Mediterrâneo. John Dominic Crossan, um autor norte-americano, (entre outros) tenta desvendar o que aconteceu nesses anos, prévios aos primeiros escritos do cristianismo, alguns de Paulo, outros atribuídos a ele. Parece ser que Paulo não conta nada sobre o Jesus da história, senão que transmite uma mensagem sobre o Cristo da fé ou sobre a fé no Cristo. A morte-ressurreição de Jesus é o eixo central, onde se articula toda a teologia paulina. É Paulo o único responsável por este anúncio? Ou ele desenvolveu o que recebera de outros? Não tenho resposta adequada a estas questões. Porém, ele não sente necessidade de escrever nada sobre a história de Jesus. Supunha Paulo que seus ouvintes e leitores já conheciam algo sobre a história do Senhor? Poderíamos responder afirmativamente, pois ele teve contacto com as colunas da Igreja-mãe de Jerusalém, isto é com Pedro, João e Tiago –o irmão do Senhor. E ele nos fala sobre os mais de quinhentos irmãos que viram Jesus ressuscitado. Ninguém na época desmentiu isto.

10) Sobre o fato do anuncio do Cristo ressuscitado ou consumado ou plenificado ou sentado à direita de Deus Pai... Estamos diante de expressões que traduzem a experiência fundamental da fé: que Jesus crucificado está vivo e voltará com gloria para o julgamento final. Isto significa a aplicação imediata após a morte de Jesus de algo que o judaísmo já conhecia: por um lado a ressurreição final dos mortos. Por outro lado, em apócrifos veterotestamentários, encontramos a figura de Melquisedec, o sacerdote-rei de Jerusalém dos tempos de Abraão, que estaria sentado à direita de Deus e teria a missão do julgamento, ou a outra figura apocalíptica de Henoc que subira ao céu, levado por um carro de fogo. Não fica, pois estranha a referencia da carta aos Hebreus de que Jesus era sacerdote segundo a ordem de Melquisedec. Nem as narrativas sobre a ressurreição e a ascensão, das quais a linguajem mítica já tinha antecedentes. Para a transmissão da fé em Jesus, pois, já encontramos esquemas prévios.

11) Sobre a consideração dos quatro evangelhos canônicos: O escrito mais antigo é o atribuído a (ou, segundo alguns autores, é de) Marcos, no tempo do sitio à cidade de Jerusalém ou pouco depois da queda da cidade, no ano 70. Escrito, segundo Antonio Piñero, sob a influencia da teologia paulina. Talvez foi escrito em Roma e seus destinatários são os romanos. Traz de volta, senão a história de Jesus, certamente, traz relatos sobre Jesus: seu batismo por João Batista, seu anuncio do Reino de Deus, exorcismos e milagres, parábolas ilustrativas, paixão e morte, ressurreição. O esquema teológico é seguido por Mateus e Lucas que completam seus evangelhos com a chamada fonte Q (material comum a estes dois últimos) e material próprio de cada um. Escritos dos anos 80. Mateus (ou o autor de) escreve, provavelmente, na Palestina e seus destinatários são os próprios judeus. Lucas (ou o autor de) escreve talvez desde a Ásia Menor e com um destino mais universal. Dos anos 90 e com esquema próprio é o evangelho atribuído a João, certamente não o João de Zebedeu, mas o conhecido como João, o ancião (presbítero) que algum autor moderno quer identificar com o “discípulo amado” inominado no próprio evangelho e que seria um discípulo que não pertencia ao grupo dos doze, senão alguém da própria Jerusalém ou arredores (seguindo a Bauckham). Convicção que se alcança, pois é este autor coloca a ação de Jesus, fundamentalmente em Jerusalém, enquanto que os outros três colocam a história-teológica de Jesus, como uma caminhada desde a Galiléia até Jerusalém.

12) Fez Jesus milagres? O velho racionalismo quis explicá-los por causas naturais, psicológicas, etc. Porém, Jesus não é o único a fazer milagres naqueles dias, apesar de todas as dúvidas suscitadas em nossos tempos. Contemporâneos de Jesus também fizeram. Por exemplo, o grego, Apolônio de Tiana ou o santo e piedoso judeu, Hanina ben Dosa entre outros. Nos próprios evangelhos se fala em outros que expulsam demônios. No evangelho de João não se fala em milagres, mas em “sinais”. Assim, pois, João não parece interessado no fato do milagre, mas no fato do sinal, isto é, naquilo que se indica com o milagre. É o cume, em minha opinião, da teologia dos sinais de Jesus, narrados como milagres nos outros três evangelhos.

13) Sem dúvida, Jesus falou em parábolas com as quais explicava a agricultores, pescadores, mulheres, fariseus e outros grupos o Reino de Deus, cuja vinda iminente Ele anunciava. Todas as parábolas, como nos chegaram, são de Jesus, ele mesmo? Ou são algumas dele, outras foram modificadas pelos redatores dos evangelhos ou foram próprias das comunidades de transmissão das palavras de Jesus? A estas perguntas há opiniões de todo jeito.

14) Concluindo (porque, caso contrario, vamos chegar a um numero indefinido de questões): Jesus foi um judeu piedoso de século I, filho de José, um “tekton” (= mestre de obras ou carpinteiro), e de Maria de Nazaré e que, provavelmente trabalhou como tal e assim foi reconhecido e que, mais ou menos, no ano 28, foi batizado por João, que fez discípulos e a quem muitos reconheceram como Mestre e Profeta, que anunciou a chegada iminente do Reinado de Deus mediante parábolas e que conseqüentemente se opôs à dominação romana, que chocou diretamente com os administradores sacerdotais do Templo de Jerusalém, que re-interpretou a Lei (o qual não era ilegal; havia várias escolas de interpretação) e que a explicou com a autoridade de exorcismos e milagres, que foi crucificado na Páscoa do ano trinta e de quem seus discípulos e fiéis, anunciam que ressuscitou dos mortos e que está sentado à direita de Deus Pai e de quem se espera sua Vinda, para a instauração definitiva do Reinado de Deus. Esta é, em minha humilde opinião, a estrutura básica sobre a que se constrói, o que gosto de chamar, a história teológica de Jesus, o Cristo.

Sirva tudo isto, meu prezado amigo, para tentar partilhar com o Sr. algo do que está se cozinhando a propósito de Jesus Cristo. Poderia tentar embarcar-me na explicação da historia da redação dos evangelhos, ou das formas literárias em que nos chegam ou na compreensão do processo de demitologização de Rudolf Bultman (que marcou um antes e um depois no estudo destas questões) ou no que precede a tudo isso, ou na documentação que existe em papiros e tal, ou na competência da arqueologia do século I em terras palestinas ou, ainda, na comparação da fé cristã com religiões helenistas, ou transmissão da fé em molduras da divinização de heróis e imperadores, nos conhecidos como evangelhos apócrifos (ou extra-bíblicos) etc. É um estudo que não tem fim e que, em minha modesta opinião, é ótimo que assim seja. Porque tudo isso nos obriga, sempre mais, à procura do conhecimento de nosso Senhor e nos compromete cada vez mais com Ele. A crítica, venha de onde vier, com qualificativos de justa ou de injusta, sempre nos estimula, ajuda e purifica. No fim, quem conhece totalmente a alguém?

Seu amigo e irmão,

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