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Ano Santo da Misericórdia

O atual papa, Francisco, com gestos, atitudes e palavras, tem nos lembrado, a nós e ao mundo, que a misericórdia é a dimensão fundamental, tanto para a vivência da fé, quanto para salvar o mundo de sua situação atual de depredação da humanidade e do planeta.

Brevemente, podemos apontar que, o Antigo Testamento sabe que Deus é “esset u emet”; em bom português: misericórdia e fidelidade ou, misericórdia fiel. Sabe também que, não há conhecimento (experiência) de Deus, onde não se pratica a justiça para com o “órfão e a viúva” (maneira bíblica de dizer, simplesmente “pobres”). Assim, pois, a experiência da presença de Deus, define-se em função dos pobres e a pratica da justiça, pois é aqui que se manifesta em toda sua realidade a fidelidade do amor compassivo de Deus.

Para Jesus, nosso Senhor, tudo isto fica claríssimo. Não são poucas as vezes que Jesus age e fala como expressão da misericórdia de Deus que não conhece limites: curas e exorcismos como sinais da presença de Deus. “Bem-aventurados os pobres porque deles é o reino dos céus”, que Mateus une ao “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”, proclama Jesus em alto e bom tom. Para uns e outros, cumpridores de leis, Jesus lembra: “vão e apreendam o que quer dizer esta palavra: misericórdia quero e não os sacrifícios”. Também o “Sede perfeitos como o Pai do céu é perfeito” de Mateus, em Lucas toma a forma concreta da perfeição de Deus: “Sede misericordiosos como o Pai do céu é misericordioso”. Que, no fim das contas, tem na raiz o vereotestamentário, “Sede santos, porque eu, vosso Deus, sou santo”. Deus-pobres-misericordia-santidade são uma coisa só.

Voltando ao Papa Francisco. Lembro que pouco depois de sua eleição como Bispo de Roma, suspirou dizendo: “Como gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres!”. Tendo este ponto de partida, seus gestos são claríssimos sinais de misericórdia: visita aos presos (na quinta feira santa lava seus pés) (“estava preso e me visitasteis”), acolhida aos pobres romanos (instala banheiros para eles no Vaticano; aqui e acolá, comparte mesa com eles), preocupação com os migrantes estrangeiros que são também acolhidos (“era estrangeiro e me acolhestes”), denuncia de guerras e do capitalismo selvagem e inumano que condena a morte a milhões de pessoas pelo mundo afora... Impossível resumir a agenda deste papa que lança ao mundo o desafio de praticar a misericórdia donde ele (e nós também) sabe que se encontra a verdadeira presença de Deus, mais do que em encíclicas ou documentos.  

Assim, pois, estamos perante um ano santo de misericórdia. Como Jesus proclamou o ano da Graça do Senhor, ano do perdão da reconciliação universais, da conversão do coração para as misérias humanas, pois é isso o significado etimológico da palavra misericórdia, a mais bela palavra com a que os seres humanos tentamos nos dizer a nós mesmos quem e como é nosso Deus.

Em minha modesta opinião, não se trata apenas de um ano santo para a misericórdia, senão um chamado de atenção para revivermos a beleza e a grandeza humana e divina que nos traz o Evangelho do Senhor e, no seu seguimento, vivermos sempre nesta dimensão, como o Senhor, a presença feliz e salvadora de nosso Deus.

A Páscoa que estamos celebrando é o tempo propício, pois a Ressurreição do Senhor nos comunica, como ensina São Paulo que “onde abundou o pecado” (injustiça e cruz, morte e destruição) “sobre-abundou a graça” (Ressurreição e Vida, alegria e esperança).

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